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Tomei Ayahuasca e me deu caganeira, mas eu venci!


O chá Ayahuasca resulta de um cozimento feito com o cipó de uma planta e a folha de outra, oriundas ambas da floresta amazônica, e nada poderia ser mais surpreendente do que alguém ter um dia descoberto essa receita sem a ajuda de um deus ou de um extraterrestre.



Tomei ayahuasca cinco vezes e lhe digo com segurança que ela me curou da depressão. A expansão de consciência que esse chá proporciona equivale a anos de psicoterapia e ainda mais que isso. É como se a verdade fosse jogada na sua cara impiedosamente. Também acredito que existem processos espirituais ocorrendo paralelamente aos processos fisiológicos – que por sinal deram origem ao título deste texto.


É difícil descrever os efeitos dessa bebida, mas posso dizer por mim que senti uma onda prazerosa acompanhada com pensamentos de toda espécie acerca da minha vida pessoal e de questões filosóficas como “O que é a verdade?”, “Onde está Deus?” e “Como seria uma pessoa sem crenças?”, sobre as quais tenho interesse. Vieram-me inúmeros insights reveladores e algumas transformações internas que passaram despercebidas pela minha consciência mas que tiveram efeito na prática, tendo me tornado uma pessoa mais leve e serena. Esse processo inconsciente é como se a planta varresse maus sentimentos e crenças negativas acumulados por anos. Pude organizar várias noções mal ajustadas, pelo que comparei tal processo com uma desfragmentação de disco que se faz no computador. Um amigo chegou a usar a expressão “planta faxineira”, que considerei bastante acertada.


Contudo, se algo é limpo, a sujeira precisa ir para algum lugar, e é através de processos fisiológicos que a sujeira sai. Pode ser na forma de choro, vômito, diarreia, suor, urina etc. Às vezes tudo isso acontece com a mesma pessoa, mas isso dependerá do dia. Eu nunca chorei, e já cheguei a ter uma vontade imensa de rir e gargalhar – creio que também uma forma de limpar e lançar fora um riso infantil que existia sufocado dentro de mim. Vomitar é sempre bom, porque parece que todo o mal que o assolou sai naquele vômito.


A última vez em que tomei o chá eu estava numa aldeia temática Tupi Guarani, em Aracruz-ES. Novamente ali eu tive grandes insights e descobertas sobre mim mesmo que mudaram minha forma de ver o mundo e me relacionar. Eu costumo levar um colchão para ter a experiência com maior conforto. E a bebida me toma de tal maneira, que preciso recrutar enorme força para me erguer e ir ao banheiro, coisa que fiz poucas vezes, embora o desejo fosse grande. E como se não bastasse ter tanta moleza no corpo, também uma longa tontura me embriagava, e eu andava sinuosamente até o banheiro, temendo ser visto naquela situação. Mas o temor do olhar alheio foi justamente uma das coisas de que me livrei naquela noite, e meu andar sinuoso, pela primeira vez, não me envergonhou. Dupliquei a distância entre o colchão e o toalete, por evitar toda linha reta, e sentindo-me guiado por Deus lá cheguei como um herói.


Tinha na minha cabeça a ideia de que eu era a própria solução dos meus problemas. Se algo me acontecesse, eu tinha a solução, inevitavelmente, como um personagem de filme. Você sempre sabe que o herói encontrará uma solução no último instante. Ele é a solução. Essa ideia estava em mim por influência de uma então recente leitura que eu havia feito – A Escola dos Deuses, de Elio D'Anna. Nada podia me impedir de alcançar o que eu queria. No banheiro, só havia duas folhas de papel higiênico. Era praticamente impossível se limpar só com aquilo, mas eu continuei sem pensar no futuro, porque eu sabia que a solução viria. Eu estava com Deus!


Na verdade, estamos com Deus o tempo todo e nos esquecemos disso; não percebemos. Mas eu sabia que sairia limpo dali de qualquer maneira. Minha confiança era inabalável.


Sentei na privada e deixei que toda a sujeira saísse, tão relaxadamente como se estivesse num resort. Foi um momento prazeroso. Depois de um tempo, que pareceu ter durado mais do que realmente durou, eu olhei para o papel e sabia, com absoluta convicção, que duas folhas seriam o suficiente. Arranquei-as do rolo com cuidado, sem rasgar. Uni-as e passei uma vez. Pude sentir a delicadeza daquele movimento. Dobrei e passei de novo, deixando quase limpo. Consegui dobrar uma segunda vez e passar – dois centímetros quadrados de papel dando o toque final. Ficou satisfatório para o momento e eu saí do banheiro me sentindo um filho de Deus.


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