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Monark e Ed Motta: falar merda é um esporte?

Atualizado: 3 de mar.



A melhor invenção do mundo é a internet: e assim como todas as outras coisas, tem de bênção a mesma medida que tem de maldição. Tudo que é bom de um lado pode ser terrível de outro. A maior bênção do homem – a Mulher –, e sua maior força, também é a sua maior fraqueza e fonte inesgotável de dores. O fogo pode tanto criar como destruir; o mesmo conhecimento que liberta, desilude; a mesma mão que afaga, apedreja. E assim com o melhor invento: que quanto mais voz dá, menos deixa o que dizer.


Recentemente, Monark, antigo dono do Flow Podcast, foi ostracizado nas redes por ter se expressado muito mal, e usado exemplo infeliz, na defesa da liberdade de expressão. Disse que deveria haver um partido nazista reconhecido por lei. Considerando o nível intelectual do seu público e do brasileiro mediano, nem mil discursos poderiam desfazer a ideia amplamente espalhada de que Monark agora é, de fato, um nazista. É pedir demais ao público que diferencie um cavalo de uma berinjela e que tenha boa vontade na hora de entender uma declaração. Agora some a tradicional estultice do povo com a farta má fé de alguns que você terá a fórmula para destruir qualquer reputação.


No entanto, o histórico de Monark deixa claro que ele não é nazista e está, ironicamente, mais distante disso do que a maioria de seus próprios detratores. Monark parece flertar, na verdade, com o justo oposto do que se lhe atribui, exprimindo em geral opiniões mais alinhadas com o libertarianismo – segundo o qual as relações na sociedade devem ser sempre voluntárias e livres de coerção.


Ainda mais irônico é que declarações muito piores feitas por comunistas ficam impunes, como se o problema não fosse defender a violência, e sim a violência do lado errado. Há youtubers que pregam abertamente o fuzilamento de pessoas inocentes, mas para esses não há sanção alguma, nem reprimenda. Estranho senso de justiça!


Obviamente, o Monark bêbado e chapado não estava defendendo o nazismo, mas sim o direito de se abrir um partido de semelhante orientação, assim como sobejam partidos de seu primo próximo – o comunismo. Aqueles que se escandalizam com o nazismo mas nada esboçam contra o comunismo possuem alguma doença da mente ou do espírito – se não uma debilidade no primeiro, por certo um vício no segundo. Porque, na escala do abominável, as duas ideologias imperam.


A reação à fala de Monark foi injusta e exagerada, ainda mais vinda de um público que nada manifesta a respeito de declarações infinitamente piores, como as de um sujeito que prega abertamente a morte de donos de empresas. Vê-se que tudo isso é coroado de uma hipocrisia triunfal.


Meu desejo é que Monark se reerga como já se reergueu anteriormente e aprenda que deve ser mais cauteloso ao emitir suas opiniões na internet.


Falemos agora de Ed Motta, que há algumas semanas vem experimentando fazer lives no YouTube e Instagram. Embora ele tenha um gosto musical exigente e todos saibam disso, causou generalizada revolta quando invectivou Raul Seixas, Elvis Presley e Johnny Cash em uma de suas lives.


É claro que não podemos comparar a fala de Monark com a de Ed Motta, porque pertencem a campos diferentes dos interesses humanos e, especialmente, porque do discurso de Motta não se pode tirar nenhuma implicação violenta, como é o caso do de Monark. Motta só manifestou seu gosto pessoal e, quando muito, ofendeu artistas mortos.


Mas as reações à sua iconoclastia também foram encapeladas, e devolveu-se-lhe em dobro a bílis que ele próprio havia emitido.


De minha parte digo que não levo a sério a maioria das coisas que se fala na internet, porque mormente vêm de pessoas que nem sabem o que estão falando ou que só estão em busca de views. No caso de Monark, ele de fato se equivocou, mas um pouco de boa vontade e raciocínio nos deixam ver que sua intenção era meramente defender uma forma radical de liberdade de expressão. No caso de Ed Motta, é só um cara na sala de casa falando merda.


O público leva a sério demais o que ouve e se esquece de olhar para os próprios problemas. Preocupam-se mais com a opinião política de um bêbado na internet do que com resolver suas questões interiores e ter um bom relacionamento com a família. A preocupação exagerada com as declarações dos outros na internet só pode vir de alguém que não está ocupado cuidando da própria vida.


Não estou dizendo que qualquer um pode dizer o que quiser e sair ileso. Mas as reações que temos visto beiram a histeria. Numa época em que se fala tanto de “diálogo”, o que se vê na realidade são meros relinchos afoitos. E, para piorar, todos se julgam intelectualmente capazes de dissertar sobre qualquer assunto. Dizer “eu não sei” e pensar um pouco antes de responder tornaram-se atitudes exemplares de grande sabedoria!


As pessoas se atêm mais a microcomportamentos de participantes do BBB do que aos próprios desafios pessoais. Ficou muito falado esses dias que um indivíduo jogou seis uvas no lixo: esse é o tipo de coisa que prende a atenção do público. Mas seis uvas não é perda tão grande quanto uma vida dedicada a essas futilidades. Cada um desperdiça o que bem entende.


Um comentário sobre as uvas de Tiago Abravanel não me parece menos fecal que os ataques iconoclastas de Ed Motta. Parece que falar merda, enfim, é um divertimento humano, talvez um modo de extravasar algo, já que se vive em tanta repressão. É melhor então que relaxemos um pouco e não levemos tão a sério as merdas que os outros falam, para que assim possamos também falar as nossas. E, quando se tratar de discurso violento, condenar os do lado A tanto quanto os do B.

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